VI Colóquio NEJAP de Estudos Japoneses – A Espada e a Pena: Guerra e Cultura Marcial no Japão – Inscrições e Programação

12/01/2022 16:38

INSCRIÇÕES

Impossibilitados de realizar nosso evento anual em 2021, anunciamos com grande prazer que estão abertas as inscrições para o VI Colóquio NEJAP de Estudos Japoneses, evento a ocorrer entre 24/01 e 25/02. Intitulado “A Espada e a Pena: Guerra e Cultura Marcial no Japão”, o presente evento abordará temas que vão da pré-história do Japão até a Guerra Sino-Japonesa, passando pelos samurais, e pelas representações e reinterpretações destes, assim como tocando em temas como crimes de guerra, o horror atômico de Hiroshima e Nagasaki, escatologia budista, e uma série de outros assuntos. Como tradição dos últimos Colóquios, as propostas também trazem forte teor interdisciplinar, dialogando com literatura, cinema, fotografia, e formas tradicionais de arte.
Do mesmo modo que no ano passado, as Comunicações e o Minicurso deste ano serão veiculados via playlist restrita no YouTube, condicionada à realização de inscrição prévia. Desta forma, as Comunicações e o Minicurso serão assíncronos, podendo ser vistos em todo o período que vigorar o evento. Fora isso, teremos duas sessões de Live, uma de Abertura e uma de Encerramento, a primeira com o Professor Thomas Conlan, da Princeton University, e a segunda com o Professor Karl Friday, aposentado pela University of Georgia.
Estes dois ilustres convidados são as maiores autoridades em história dos samurais em línguas ocidentais. Thomas Conlan é autor das obras In Little Need of Divine Intervention: Takezaki Suenaga’s Scrolls of the Mongol Invasions of Japan, State of War: The Violent Order of Fourteenth-Century Japan e From Sovereign to Symbol: An Age of Ritual Determinism in Fourteenth Century Japan. Karl Friday é autor das obras Hired Swords: The Rise of Private Warrior Power in Early Japan, The First Samurai: The Life and Legend of the Warrior Rebel, Taira Masakado, e Samurai, Warfare and the State in Early Medieval Japan. Mais detalhes sobre as Lives encontram-se abaixo.
O evento será totalmente gratuito, conferindo certificado de 20 horas para os que cumprirem os requisitos mínimos (75% de presença/participação nas atividades), e as inscrições podem ser feitas entre os dias 12/01 a 31/01 clicando aqui.

PROGRAMAÇÃO


Abaixo, apresentamos a programação completa. Postaremos os resumos com bibliografia nos próximos dias em formato PDF.

Abertura e encerramento (ao vivo):

  • Live de Abertura: Studying Samurai on the Web: Disseminating Digital Sources for Medieval Japan [em inglês] – 24/01, 19:00 – 21:00h
    THOMAS CONLAN
    Professor of East Asian Studies and History – Princeton University

Thomas Conlan will introduce a number of websites which reproduce visual and written sources of medieval Japan, and will explain the process of their creation and how they can be used to better understand the samurai of Japan. His analysis will start with the scrolls of the Mongol Invasions of Japan, and continue to through accounts of guns and gunpowder in sixteenth-century Japan.

  • Live de Encerramento: Bushidō” & What Bushi Did [em inglês] – 25/02, 18:00 – 20:00h
    KARL FRIDAY
    Professor Emeritus – University of Saitama, Professor Emeritus – University of Georgia

The samurai is an entertaining, romantic figure and for many in and out of Japan, a fundamental representative, a symbol, of Japanese national character. And yet the majority of what samurai aficionados—and a great many scholars as well—believe about samurai culture derives from a consciously-fashioned mythology that bear scant resemblance to historical reality. Indeed, to describe samurai culture in historical reality, we must first ask “which samurai historical reality?”
For while modern commentators have too often attempted to treat “bushidō” (literally, “the way of the warrior”) as an enduring code of behavior readily encapsulated in simplistic notions of honor, duty, and loyalty, the historical reality is far from simple. Warrior values and behavior varied significantly from era to era—most especially across the transition from the medieval to the early modern age—and in most cases bore scant resemblance to twentieth-century fantasies about samurai comportment. This lecture will examine the evolution of the warrior ethos in Japan, with special attention to the key constructs of honor and loyalty.

Nota sobre as Lives: as Lives de Abertura e Encerramento serão em inglês, sem tradução, mas serão posteriormente legendadas para português. Caso necessário, perguntas poderão ser enviadas em português, e os organizadores as traduzirão para o inglês durante a transmissão, mas não podemos garantir a tradução das respostas, pois elas podem acabar se estendendo. Neste caso, aguardem até a legenda dos vídeos sair.
Para assinar o formulário de presença das lives, é necessário comparecer durante a transmissão e preencher a chamada quando o link for disponibilizado.

Comunicações:

  • O Humano e o Divino: Representações Fotográficas do Imperador Shōwa de Setembro e Dezembro de 1945
    Lucas Gibson
    Mestre em Artes Visuais – UFRJ

Em setembro de 1945, no mês seguinte após a rendição do Japão na Segunda Guerra Mundial, o imperador Shōwa foi fotografado ao lado do general Douglas MacArthur pelo fotógrafo Gaetano Faillace, gerando uma das imagens mais icônicas e polêmicas do contexto imediato do pós-guerra. Na imagem, vê-se o imperador como um humano de baixa estatura, que teve sua divindade negada ao fim da guerra, com trajes formais e postura rígida, contrastando com um general de postura relaxada, posicionado à direita de Hirohito, muito mais alto e com trajes menos formais. A imagem, veiculada massivamente em jornais pouco tempo depois de ser criada, trazia uma simbologia poderosa em seu discurso, sugerindo fortemente como seriam traçadas as relações entre Japão e Estados Unidos nos anos subsequentes. Em dezembro de 1945, os fotógrafos Shōgyoku Yamahata e seu filho Yōsuke Yamahata fotografaram o Imperador Shōwa e sua família a partir de uma solicitação da revista Life. As imagens, publicadas em 4 de fevereiro de 1946 sob o título de Sunday at Hirohito’s (em tradução livre, “Domingo na Casa de Hirohito”), mostram um “lado humano” do imperador, apresentando-o como um pai de família, um biólogo e um homem simples, capaz de nutrir amor por sua família e por seu povo. A sessão de fotos gerou o fotolivro Tenno (Imperador), publicado em 1946. Este conjunto de imagens partiu de uma iniciativa do governo estadunidense de consolidar o discurso de negação de divindade do imperador, que se viu forçado a fazer isto no cenário imediato do pós-guerra. O objetivo inicial deste trabalho é tecer comparações entre a icônica imagem de Hirohito com Douglas MacArthur de setembro de 1945 e a sessão de fotos realizada do imperador com sua família três meses depois. A partir disto, busca-se demonstrar como as mudanças na forma de registro do imperador Shōwa contribuíram para a formação de imaginários distintos em um intervalo curto de tempo do pós-guerra, apontando como a subjetividade do discurso fotográfico pode permitir uma apreensão particular da realidade à luz do contexto que se apresenta.

  • Guerra, raça e responsabilidade: Análises iniciais de Shingeki no Kyojin
    Lucas Marques Vilhena Motta
    Doutorando em História – UFPel

A Guerra do Pacífico (1931-1945) é um marco na História japonesa e que, até a atualidade, influencia na política interna e externa do país. Recentemente, pode-se observar um avanço de uma interpretação conservadora/nacionalista do conflito, a qual silencia os diversos crimes cometidos pelo Japão e, por conseguinte, exime a nação de culpabilidade. Entretanto, esse discurso gera atritos com países vizinhos ao Japão, visto que eles foram vítimas das atrocidades perpetradas pelo império nipônico. Hashimoto (2015) observa que a memória/imaginário da Guerra do Pacífico “enraizou-se” na sociedade japonesa e influencia tanto sua identidade quanto suas produções (midiáticas). A partir destas proposições, analisaremos o mangá Shingeki no Kyojin (Attack on Titan, no Ocidente) de Hajime Isayama, o qual alcançou projeção e popularidade global, no intuito de compreender como a narrativa da obra (re)imagina a Guerra do Pacífico e de que forma ela se posiciona quanto a esta memória. Esta proposta é embasada pelas discussões apresentadas por Morris-Suzuki (2005), a qual propõe que obras midiáticas são relevantes formas de consumo de “visões históricas” e que, podem auxiliar na construção de imaginações históricas, de seus consumidores. Além de Morris-Suzuki, o livro The Representation of Japanese Politics in Manga (2021), organizado por Rosenbaum, aponta o mangá como um meio de grande circulação de discursos políticos, tornando sua análise imprescindível na compreensão das disputas de memória dentro da sociedade japonesa.

  • Sayonara Ásia?:  As guerras Sino- Japonesa (1894-95) e  Russo-Japonesa (1904-05) em imagens
    Rogério Akiti Dezem
    Professor do Depto. Estudos Luso-Brasileiros – Universidade de Osaka

Nesta comunicação gostaria de analisar algumas imagens da iconografia produzida no Japão representando dois conflitos importantes da História contemporânea: as guerras Sino-Japonesa (1894-95) e Russo-japonesa (1904-1905). Esses choques entre o Japão que se modernizava e as nações próximas fazem parte do que denomino “ciclo das três guerras” (Guerra Sino-Japonesa 1894-95; Guerra Russo-Japonesa 1904-05 e Guerra dos 15 anos 1931-1945). Conflitos que estão inseridos historicamente em um momento de consolidação de uma identidade japonesa associada ao nacionalismo (jap. kokutai). E que a partir das vitórias do país do sol nascente, acabaram por criar condições (imagéticas e ideológicas) para reforçar um sentimento militarista e pavimentar o caminho para consolidação dos militares no poder duas décadas depois.
Os anos de 1895-1905 são o momento de ajuste de foco da maneira como o governo japonês passou a usar os instrumentos da modernidade (tecnologia industrial e militar) de matriz europeia como práxis para se afirmar perante ao “outro” asiático (China) e europeu (Rússia), subvertendo a hierarquia geopolítica no Extremo Oriente e abrindo caminho para uma política de anexações na Ásia sobre o pretexto de “proteger” os asiáticos do imperialismo europeu.
A guerra Sino-Japonesa, nas palavras do intelectual japonês Yukichi Fukuzawa (1834-1901) na época, seria “uma guerra entre a civilização (Japão) e a barbárie (China)” ou nas palavras de um diplomata alemão “uma guerra entre amarelos no fim do mundo” , diferentes perspectivas sobre um mesmo acontecimento que deu início efetivo ao turning-point japonês aos olhos do mundo no alvorecer do século 20.
O conflito entre o “gigante russo” e o “diminuto Japão”, apesar da sua grande importância histórica – considerado como o primeiro conflito moderno – até recentemente (2000) havia sido pouco estudado sob perspectivas que não fossem militares em pesquisas acadêmicas em língua não-japonesa. Esse “desinteresse” também pode ser explicado de forma simplista a partir da afirmação de que as guerras posteriores acabaram por eclipsar o conflito entre o “sol e o orvalho”(jap. nichiro sensō) segundo o historiador israelense Rotem Kowner.
Meu objetivo nesta comunicação é fazer uma breve introdução dos dois conflitos e examiná-los sob a perspectiva do ideal de “deixar a Ásia para trás” (jap. datsu a ron) título de um editorial anônimo (provavelmente escrito por Yukichi Fukuzawa) publicado no jornal Jiji Shimpō em 16 de março 1885. Na época em que foi publicado, o editorial passou desapercebido ao debate público, vindo a se tornar uma referência nos debates historiográficos no período posterior a derrota japonesa na Guerra dos 15 anos (1931-1945).
A partir desse contexto pretendo discutir como as populares xilogravuras/litogravuras (jap. nishiki e) e o nascente fotojornalismo construíram um imaginário heroico, eufórico e militarista cativando principalmente as crianças e os jovens ao apresentar um “novo Japão” em ascensão e desviando o olhar do público para os problemas sociais advindos do alto custo dessas aventuras no exterior. Serão analisadas algumas imagens produzidas por renomados artistas do período como Kobayashi Kiyoshika (1847-1915) e Utagawa Kokunimasa (1874-1944).

  • Guerreiros da Última Era: de arautos do fim à protetores do trono
    Nikita Chrysan da Silva Pires
    Mestranda em História Social – UFF

Esta comunicação é fruto de um recorte da minha atual pesquisa de mestrado que busca analisar o Gukanshō, crônica do século XIII escrita pelo monge Jien visando convencer o insei Go-Toba a não atacar o bakufu de Kamakura após o assassinato do shōgun Minamoto no Sanetomo, e da adoção de Kujō Yoritsune como seu sucessor. Para tal Jien se utilizará da narrativa histórica como estratégia, criando um trabalho interpretativo dos eventos do processo histórico japonês, desde o lendário tennō Jimmu até o tumultuado contexto político de 1219, ano em que escreve sua crônica.
O Gukanshō se diferencia de outras crônicas históricas do período por ter ampla base religiosa, na qual seu autor desenvolve uma curiosa chave interpretativa que contava os eventos históricos de acordo com desígnios divinos chamados de Princípios, onde Amaterasu, entidade protetora do Japão e do clã imperial, juntamente de Buda, acordariam sobre as melhores formas de manter o trono e o Estado durante suas últimas eras de acordo com a doutrina do mappō.
Acredita-se que Jien, ciente das disputas políticas de seu tempo e das oportunidades que a nomeação de Yoritsune como shōgun traria ao clã Kujō, do qual ele mesmo era parte, tenha escrito o Gukanshō como forma de legitimar poderes tanto tradicionais quanto ascendentes, colocando-os como manifestações dos Princípios divinos resultantes de acordos entre Kami e Buda. Neste sentido, a classe guerreira que tanto ameaçaria a aristocracia de Heian, seria na verdade legitimada como protetora dos interesses do trono e do Estado, se unindo à corte na pessoa do jovem shōgun Yoritsune. O objetivo é, portanto, identificar na fonte eventos e argumentos do qual o monge se utiliza para convencer o leitor de suas ideias.
Para o desenvolvimento da pesquisa foi utilizada a tradução do Gukanshō de Brown e Ishida (1979), além da análise de ambos sobre a estrutura do pensamento de Jien (ISHIDA, 1979) e da relação da história de sua família com os motivos que o levam a escrever a crônica (BROWN, 1979). Já para compreensão do contexto histórico serão utilizados dois capítulos da coleção The Cambridge History of Japan, escritos por William McCullough e Rizo Takeuchi sobre a corte de Heian e a ascensão guerreira, além do texto de Karl Friday (2010) sobre a evolução dos guerreiros junto à corte imperial. Por fim, considerando-se que a visão de Jien sobre o papel guerreiro se relaciona também com as três Regalia japonesas, conta-se com a análise de Bernard Faure (2004) sobre o papel de relíquias budistas no governo do Japão.

  • A Criação do Conceito Moderno de Bushidō a partir de Inazō Nitobe
    Alexandre Toman
    Professor de Matemática – CEFET/RJ, Graduando em História – UNIRIO
    Liana Vasconcellos
    Graduanda em História – Universidade Estácio de Sá

O objetivo do trabalho é apresentar o livro denominado Bushido, The Soul of Japan (1899) – famosa obra de Inazō Nitobe – com um viés menos usual, ou seja, o de uma tradição inventada. Existiram outros termos que se referiam à palavra bushidō anteriores ao que Nitobe prescreve. Contudo, o compilado que o autor escreve e sistematiza, contém o que pode ser denominado de Tradições Inventadas (HOBSBAWN; RANGER, 2008), já que Nitobe incorpora elementos próprios da religião cristã – especialmente o da vertente protestante dos Quakeres, da qual tomou termos como “fidelidade” e referências morais sobre o que é ser uma pessoa boa ou uma pessoa má (NUNES(1), 2010). Nitobe estudou nos Estados Unidos e absorveu muitos conceitos ocidentais para a utilização em sua obra, e o uso de uma vertente de religião cristã era algo minimamente esperado de acontecer. Além dessa influência religiosa, Nitobe também recebeu influência de obras como as de Carlyle e de Burke, onde o primeiro gerou resultados relativos à conceitos sobre nação, em especial sobre recursos relativos à extensão da materialidade – espiritualidade de uma nação (NUNES, 2010(1)). Já Burke influenciou Nitobe com uma visão que beira a ingenuidade de ”exaltação a uma determinada classe, que no caso da Inglaterra são os cavaleiros aristocráticos e no Japão os samurais” (NUNES, 2010(1)). Tal obra, como uma tradição inventada, foi usada para propósitos bem definidos, tal como mostrar às potências exteriores da época o fato de que o Japão se encaixava em um conceito de Estado Moderno nos moldes de tais potências econômicas, e, assim, não deveria ser submetido à neocolonização. Com o bushidō e com uma linguagem que fosse familiar aos ocidentais – para que os mesmos não caíssem no erro do orientalismo, considerando os japoneses menos civilizados e, por consequência, impusessem seus interesses no país segundo seus parâmetros de quem deveria e quem não deveria sofrer intervenções – o livro serviu como um “Instrumento de divulgação da cultura japonesa no Ocidente” (NUNES, 2010(2)). Então, com a Revolução Meiji, o Estado Japonês aboliu a descentralização de terras e passou a considerar que todo cidadão japonês tinha espírito de samurai e que todos, portanto, deveriam servir ao Império, e não aos daimyō, tal como os samurais propriamente ditos o faziam, em um sistema similar ao feudal europeu (PATTERSON, 2010).
Tal tradição inventada por Nitobe poupou o Japão de diversos problemas com as nações ocidentais, além de ter criado características de como o Estado Moderno japonês deveria ser apresentado e ser pensado por seus cidadãos – todos eram “herdeiros da ética dos samurais” (NUNES, 2012). Apesar disso, o bushidō acabou sendo utilizado para fomentar um nacionalismo exacerbado em seus cidadãos e, segundo PATTERSON (2010), as artes marciais modernas tiveram uma parcela de responsabilidade nesse processo – embora seus “pais modernos”, tal como Jigorō Kanō e Gichin Funakoshi não tivessem esse propósito extremamente belicoso e que culminou em extermínios durante a Segunda Guerra, ao expandirem e ao ensinarem suas artes.

  • Ōyoroi: o papel das armas nas artes da paz
    Keiko Nishie
    Mestre em Língua, Literatura e Cultura Japonesa – USP

Esta comunicação corresponde a um recorte de nossa pesquisa de mestrado sobre a arte kōgei 工芸 no contexto da reabertura do Japão para as relações internacionais na segunda metade do século XIX. Um dos primeiros artefatos que nos chamaram à atenção foi uma bela armadura em estilo ōyoroi 大鎧, pertencente ao acervo do Victoria & Albert Museum na Inglaterra. O objeto foi doado à instituição pela própria rainha Victoria, que por sua vez o recebera como um presente diplomático do shōgun Tokugawa Iemochi após a assinatura do Tratado de Edo (1859). Este documento trazia cláusulas muito desfavoráveis ao Japão, e as negociações ocorreram em meio a uma atmosfera de hostilidades. Dessa forma, o gesto de ofertar à monarca inglesa uma indumentária de guerra nos parecia conter uma mensagem ambígua: a afirmação de uma alta cultura no Japão, atestada pela sofisticação técnica do conjunto, e a existência de uma tradição bélica, que tornava o presente estranhamente ameaçador.
De fato, a animosidade do xogum era justificada, pois o fracasso em resistir às exigências dos estrangeiros culminaria na desmoralização final do xogunato nos anos seguintes. Entretanto, a ficha catalográfica da obra nos dava pistas de que os trajes de batalha tinham significados mais profundos na cultura da Era Edo (1603-1868), um período de relativa paz. O exemplar havia sido montado exclusivamente para a ocasião e, assim como outras armaduras da época, tinha uma função meramente cerimonial. Além disso, o estilo ōyoroi era uma referência ao período Kamakura (1185-1333), considerado o auge da cultura guerreira, mas as versões recentes apresentavam adaptações que as tornavam mais leves e pouco efetivas como proteção. Essas informações nos levaram a tentar compreender a permanência dos artefatos de guerra durante os tempos de paz.
A ascensão do clã Tokugawa ao xogunato em 1603 foi a conclusão de um processo de pacificação do país que estivera em conflitos generalizados desde o século XV. O título correspondia a um poder paralelo ao da Casa Imperial, baseado na hegemonia bélica e não em uma origem divina. Por esse motivo, durante a Era Edo, a classe guerreira desenvolveu um desejo por outro tipo de legitimidade, não mais ligado à força, mas à civilidade e à cultura. A capacidade de defender os territórios e o Japão em geral foi dando lugar às habilidades administrativas e diplomáticas, mas sem perder de vista a origem militar. Muitos artefatos representativos dos costumes e atividades dos samurais, tais como as espadas e as armaduras, deixaram de ter uma função na guerra, e passaram a ser objetos portadores de valores estéticos. Os conflitos armados foram substituídos pela competição social através da ostentação desses refinamentos e das trocas de presentes entre os daimios ou “senhores feudais”. Assim, a coleção e a apreciação das armas tornou-se uma atividade cultural, paradoxalmente possibilitada pela consolidação da paz.

  • Takashi Morita conta Hiroshima: notas sobre o testemunho hibakusha no Brasil
    Mateus Martins do Nascimento
    Mestre em História Social – UFF, pesquisador do CEA-UFF

Em se tratando de memórias de guerra e sua função sócio-histórica, a historiografia especializada em literatura de testemunho compilou um conjunto significativo de conclusões, tendo como base “turning authors” da história ocidental recente. Por exemplo, poderíamos citar Primo Levi, ecoado pelo filósofo Giorgio Agamben nos textos que compõem a coleção Homo Sacer (2008), ou os recentes avanços da história do tempo presente, balizados por Henry Rousso e outros teóricos preocupados com o papel da memória nas políticas públicas de reparação. Só neste breve levantamento, surpreende-nos a ausência de “vozes” asiáticas que deem conta das igualmente tensas conjunturas desse continente no contexto do mesmo século XX. Onde estão aqueles que falam desde a Ásia sobre os principais eventos ocorridos/sofridos ali? Quais seriam as suas contribuições para o debate sobre testemunho, reparação e legado? Há chances de repensarmos a história da Ásia a partir de suas trajetórias? Tendo essas questões em mente, nossa comunicação abordará o interessante caso dos hibakushas no Brasil, sobretudo, os sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki que vivem em São Paulo. Passaremos em revista pela trajetória do projeto Sobreviventes pela Paz, liderado pelo Sr. Takashi Morita, cuja história orientou a formação do espetáculo itinerante chamado Sobreviventes de Hiroshima. O Sr Morita (96 anos) parece estar no auge de sua missão, pois fala sobre os horrores vividos no bombardeio de Hiroshima em 6 de agosto de 1945, como se ainda estivesse lá. O mais correto seria dizer: ele quer nos fazer estar naqueles instantes que precedem a explosão e nos amparar no passeio pelo que seria a região japonesa, soterrada entre escombros. No limite, ele nos torna observadores participantes de sua narração. Desta forma, seu depoimento serve-nos como base para a crítica mais ampla das imagens canônicas que nos apresentam o Japão (Kuniyoshi, 1991) e a história da segunda grande guerra naquele país (Igarashi, 2011). Ao mesmo tempo, parece-nos possível pensar “o sobrevivente Takashi Morita” portando uma performance, foco de nossa análise, na reconstituição dos usos nipo-brasileiro desse trauma de guerra — ou, do após guerra.

  • Os Samurais Imaginados: A Imagem Canônica do Samurai através da Mídia
    Douglas Magalhães Almeida
    Especialista em História Militar – Unirio, coordenador e pesquisador do GEHJA-CEIA/UFF

Uma das principais indagações que nos surge ao ver um filme histórico de samurais Chambara é o que dali podemos concluir como “real” ou “imaginado”. É nesse contexto que essa investigação busca questionar os elementos constituintes da imagem do guerreiro japonês nos dias atuais, compreendendo os múltiplos canais político-culturais-sociais pelos quais fora reinventada sua tradição no imaginário popular.
É perceptível que encontramos obras famosas em que o termo samurai e rōnin se misturam, seja em animes, mangás ou mesmo filmes de época. E cabe compreender até que ponto a divulgação midiática, que preza primeiramente pelo entretenimento, foi capaz de formar o pensamento ou mesmo os estudos acerca desse assunto. Na compreensão da fala de Stephen Turnbull (2018), de que o conceito do samurai e ninja indicam que suas tradições foram sujeitas a um exagero considerável e comercialização através dos anos, capazes de se tornarem mitologias contemporâneas, entra em sintonia com os estudos de Oleg Benesch (2014) sobre como o nacionalismo, internacionalismo e a modernidade compuseram uma nova invenção do bushidō que definiria quem são esses combatentes.
Por meio desses estudos, e analisando fontes primárias como o Mōkō Shūrai Ekotoba, os rolos ilustrados emakimono sobre as invasões mongóis ao Japão do século XIII, ou o Taiheiki, a Crônica da Grande Paz referente aos eventos bélicos do século XIV, encontramos uma difusão entre o samurai histórico que viveu no passado do arquipélago nipônico e o samurai midiático, que vive na memória de seu povo e no imaginário mundial a partir de mitos aprofundados por uma característica de modernidade enquanto apresentados por mídias diversas que colaboram na reinvenção dessa mitologia que cerca os guerreiros feudais japoneses.
O presente trabalho tem como finalidade promover, portanto, o debate acerca de que elementos se estabelece as características dos samurais como os conhecemos pelo imaginário do século XXI, os referenciando canonicamente como figuras de virtudes exemplares e ligados às características tradicionais reinventadas conforme os discursos ligados à concepção das identidades japonesas modernas.

  • Eros e Morte: a linguagem do corpo no curta “Yūkoku” de Yukio Mishima
    Helena Ariano
    Mestranda em História da Arte – Unifesp (Campus Guarulhos)

O trabalho que proponho apresentar consiste na minha pesquisa de mestrado em andamento, cujo título é Eros e Morte – a linguagem do corpo no curta Yūkoku de Yukio Mishima. Nessa pesquisa, realizo uma análise do curta Yūkoku – Ritos de Amor e Morte, de 1965, roteirizado, produzido, dirigido e atuado pelo importante e polêmico escritor Yukio Mishima. O objetivo geral de minha análise é compreender de que formas o corpo, em todas as suas complexidades, se manifesta em Mishima, considerando suas profundas relações com o erotismo, a violência, a morte e o patriotismo. É importante saber que há três bases principais que caracterizam o pensamento de Mishima: a devoção à instituição imperial, o erotismo e a morte, havendo, para ele, uma indissociabilidade entre esses elementos. Com forte direcionamento político ultra-nacionalista, o corpo em Mishima assume ares patrióticos, além de se relacionar fortemente com a sexualidade e com a violência, e tais características são percebidas tanto em sua vida pessoal quanto em sua obra. O motivo que me levou a escolher o curta como objeto de estudo e análise é o fato de que nele encontram-se todos os elementos supracitados tão caros a Mishima, sendo, assim, uma importante síntese de seu pensamento estético e político, como também um ensaio para seu próprio seppuku, o suicídio samurai, que viria a ser cometido em 1970, aos seus 45 anos. O curta, baseado no conto Patriotismo, de 1960, é baseado no Incidente de 26 de Fevereiro de 1936 (em que houve uma tentativa de golpe de Estado por membros do Exército japonês), e possui como enredo o duplo suicídio amoroso e político do tenente Shinji Takeyama (interpretado pelo próprio Mishima) e sua esposa Reiko (interpretada por Yoshiko Tsuruoka). O curta conta com a estética do teatro , trilha sonora de Richard Wagner e, por ser mudo, forte uso do gestual e do corpo para a narração da tragédia do casal. Os momentos que antecedem o suicídio de ambos são marcados por fortes erotismo e devoção nacionalista que intensificam o êxtase da experiência de morte, dialogando, portanto, de maneira profunda com os valores pessoais e políticos do próprio Mishima.

Minicurso:

  • Guerra e paz na pré-história japonesa
    Larissa Bianca Nogueira Redditt
    Mestre em arqueologia – Museu Nacional-UFRJ, Mestranda em Japanese Humanities – IMAP-Kyushu University, coordenadora e pesquisadora do GHAJ/LHER-UFRJ

Os diferentes períodos da pré-história japonesa foram interpretados de maneiras muito diferentes nos dois últimos séculos. Recentemente, discursos que visam projetar no período Jōmon um ideal de sustentabilidade entre a sociedade humana e a natureza tem representado a população Jōmon como pacífica e harmoniosa. Esse discurso se volta para evidências arqueológicas como a aparente escassez de vestígios humanos com traços de morte violenta para este período. Em contraste, a presença de armas em larga escala e mudanças nos padrões de assentamento são utilizados para argumentar que o período Yayoi representaria o advento da violência no arquipélago, que se tornaria generalizada no período Kofun. Entretanto, se considerarmos mais atentamente as características de cada um destes períodos, veremos que estes discursos não se sustentam, além de serem extremamente problemáticos. Este minicurso pretende analisar o aspecto “marcial” da cultura material da pré-história japonesa e algumas das abordagens que foram feitas sobre ela pela arqueologia e historiografia modernas, bem como o mais recente paradigma ecológico.

“VI Colóquio NEJAP de Estudos Japoneses – A Espada e a Pena: Guerra e Cultura Marcial no Japão” abre período de submissão de propostas

02/11/2021 18:18


Bunbu icchi (文武一致) é uma expressão de longa data na história japonesa. Por vezes traduzida livremente como “harmonia entre a espada e a pena”, fala da necessidade de cultivar simultaneamente as artes civis e militares. O NEJAP por longo tempo destinou-se ao estudo da história medieval japonesa – períodos Kamakura e Muromachi – e o papel dos samurais nesta história. Neste ano, propomos uma avaliação da guerra e cultura marcial no Japão de modo mais amplo, avaliando os impactos e apropriações de discursos, como ocorre com o bushidō nos mais variados contextos (na propaganda nacionalista do período imperial, nos ambientes de ensino e prática de artes marciais de origem japonesa, e mesmo no meio empresarial), as representações da guerra, sua cultura, e seus participantes (guerreiros e soldados) nas mais variadas mídias, os discursos de legitimação de guerra e confronto em todos os períodos da história japonesa, a análise crítica da escrita sobre a arte da guerra e do combate, as questões de guerra e memória tanto da perspectiva japonesa quanto da do outro lado (seja invasor ou invadido, ofensor ou atacado), os debates políticos acerca do rearmamento do Japão e suas implicações diversas na geopolítica ásio-pacífica e mundial, e, é claro, o estudo de guerras e conflitos singulares ao longo da história japonesa.

Da mesma forma que no ano passado, este colóquio será veiculado por meio do canal do NEJAP no YouTube. Aceitaremos propostas enviadas entre os dias 02/11/2021 e 15/12/2021, e todos os proponentes receberão uma resposta até 08/12/2021. Uma vez aceitas as propostas, será de responsabilidade dos proponentes gravar um vídeo de duração condizente com a modalidade de apresentação escolhida (vide abaixo) e entregá-lo até 05/01/2022 para revisão do NEJAP. O Colóquio terá sua live de abertura em 17/01/2022, e encerramento em 11/02/2022. As inscrições para ouvintes ainda não estão abertas.

REGRAS PARA O ENVIO DE PROPOSTAS

Ao enviar sua proposta, o proponente aceita ter seu vídeo postado no canal do NEJAP, e aceita os termos aqui dispostos. As propostas deverão ser enviadas para nejap@nejap.ufsc.br dentro da data estipulada com o título do e-mail “Proposta para o VI Colóquio NEJAP (Minicurso/Comunicação)”. O proponente, portanto, deverá optar entre duas modalidades de apresentação – comunicações, com vídeos de 20-40 minutos de duração (em um só segmento de vídeo) ou minicursos (vídeos ou playlists de 2-6 horas de duração). As propostas deverão conter nome dos proponentes, vínculo institucional e situação acadêmica, um resumo de até 500 palavras, 3 a 5 palavras-chave, e pelo menos três referências bibliográficas segundo as normas da ABNT. Estas informações deverão estar no corpo do e-mail, não aceitaremos propostas em anexos. As propostas podem ser de trabalhos completos ou investigações em curso, desde que dentro da temática abordada.

Aceitamos submissões de graduandos e graduados.

SUBTEMAS CONTEMPLADOS

A lista disposta abaixo serve como guia geral, não impedindo de aceitarmos outras propostas ligadas ao grande tema do evento, mas que transitem entre vários subtemas ou não encaixem-se em nenhum deles.

  • Guerras e conflitos armados na história do Japão
  • Cultura marcial, discursos, e apropriações
  • Narrativas de legitimidade para o uso da violência
  • Representações da guerra, guerreiros, soldados, e civis
  • Memórias de guerra
  • Escritos sobre a arte da guerra e dos guerreiros
  • Intersecções entre guerra, religião, economia, e política
  • Ficção de guerra (literatura, cinema, anime, mangás, jogos e outras mídias)

Muromachi Tardio e Sengoku: Roda de Leituras sobre o Japão nos Séculos XV e XVI

23/03/2021 17:57

Dia 04/01 inicia-se oficialmente a próxima atividade do NEJAP, a ser conduzida o ano todo por via remota, uma roda de leituras sobre o Japão nos séculos XV e XVI, dando continuidade à nossa última roda de leituras, ocorrida antes da pandemia. Estas atividades tendiam a ser presenciais, o que implicava a exclusão de membros de outras regiões do país. Desta vez, no entanto, estaremos aceitando inscritos de outras regiões, embora por tratar-se de um grupo para leitura e debate de textos, limitaremos a dez vagas, para além dos membros do NEJAP. O período de inscrição encerra-se nessa sexta-feira, 26/03.

A atividade fornecerá certificado de 38 horas, e para acessar o formulário de inscrição, basta clicar aqui. Recomendamos, no entanto, que antes disso confiram o calendário completo, incluindo datas e carga de leitura, aqui.

Quanto ao certificado do V Colóquio, o mesmo está sendo preparado, e quando todos os trâmites encerrarem-se, os contemplados e contempladas receberão instruções por e-mail.

 

V Colóquio NEJAP de Estudos Japoneses – O Japão em Ruptura: Crises e Respostas na História Japonesa – Cronograma das apresentações

02/12/2020 17:35

 

APRESENTAÇÃO

 

Com grande satisfação, o NEJAP parte para seu V Colóquio, numa tradição que remonta o ano de 2016. Nestes tempos de pandemia, duros para todos, aprendemos muito. Como não poderia ser diferente, o V Colóquio irá realizar-se de modo completamente remoto, numa mistura de atividades síncronas e assíncronas. O maior destes aprendizados foi, sem dúvidas, as potencialidades do meio digital em criar redes de solidariedade acadêmica e ampla divulgação científica.

O evento inicia-se formalmente com uma Live inaugural dia 06/12. Dia 17/12 teremos uma Live de encerramento com a presença do ilustre professor Alexandre Uehara, que tratará de questões atuais, como o Japão diante da pandemia de COVID-19 e as perspectivas pós-pandemia. Estas duas Lives constituem o núcleo de atividades síncronas, que conferirão, cada qual, certificado próprio de duas horas aos que participarem durante a transmissão.

As demais atividades poderão ser vistas a qualquer tempo entre sua publicação (06/12-07/12), até a data final do evento (20/12). A soma das atividades assíncronas, compostas por 7 Comunicações orais e 2 Minicursos, concederá um certificado de 20 horas aos que completarem a carga-horária mínima de 75% de presença. Para obter tal certificado, é necessário assistir os vídeos e marcar sua presença até 20/12. O acesso a todos os vídeos ficará restrito aos inscritos durante o período previsto para a duração do evento, sendo tornado público a todos a partir do dia 21/12, salvo prorrogação.

As inscrições são gratuitas, e darão acesso à playlist que contemplará todos os vídeos do colóquio. Para inscrever-se, basta preencher este formulário. Os inscritos receberão o link de acesso e todas as instruções para a participação no evento e a conferência de presença no dia 06/12, até as 15 horas. Em caso de dúvidas, o e-mail para contato é nejap@nejap.ufsc.br.

Abaixo das imagens, constam os resumos de cada Comunicação e Minicurso.

Observação: as datas mudaram! É possível inscrever-se até o dia 15/12, e embora a Live de encerramento continue marcada para 17/12, o evento ficará aberto para os inscritos verem os vídeos e obterem certificado até o dia 10/01.

 


 

RESUMOS

 

Comunicações:

 

  • A experiência feminina dekassegui no romance “Sonhos Bloqueados” (1991)

Luana Martina Magalhães Ueno (mestranda em História Social – UEL; pesquisadora do LAPECO e do CEA/UFF)

A década de 1980, conhecida como a “década economicamente perdida”, é marcada por dificuldades geradas pela crise econômica iniciada nos anos de 1970. Nesse decênio ocorreu o baixo dinamismo na economia e aumentou o desemprego. Assim, para alguns sujeitos a única saída de ascender socialmente ou manter-se economicamente seria emigrar para países como os Estados Unidos, Canadá e o Japão. Dentro desses, houve o movimento dekassegui, no qual nipo-brasileiros migraram para o Japão com uma perspectiva de enriquecimento muito parecida dos primeiros imigrantes japoneses (1908). Sendo este, um tema de destaque no livro “Sonhos Bloqueados”, de Laura Honda-Hasegawa, publicado em 1991 e pela Editora Estação Liberdade. Dessa maneira, o objetivo deste trabalho é analisar a construção da narrativa em torno do fenômeno dekassegui, compreendendo como Honda-Hasegawa expressou os contextos sociais das décadas de 1980 e 1990, destacando o papel da mulher na emigração. Para isso, utilizaremos autores que analisam o fenômeno dekassegui, como: Elisa Massae Sassaki Pinheiro (2000; 2009); Cristiane Yuri Toma (2000); Francisca Bezerra de Souza (2014). Metodologicamente, dialogaremos com autores que discutem a literatura e a história: Antonio Candido de Mello de Souza (2006) e Roger Chartier (2014).

Palavra-chave: Movimento dekassegui; nikkeis; mulheres; “Sonhos Bloqueado”; Laura Honda-Hasegawa.

  • A repolitização das artes cênicas e performáticas contemporâneas no Japão após o evento catastrófico de 3.11

Rafael Mariano Garcia (doutorando no PPG Artes da Cena – UNICAMP)

Após o grande terremoto, seguido de tsunami e acidente nuclear em Fukushima, ocorrido em 11 de março de 2011, conhecido simplesmente como 3.11, o Japão passa a testemunhar uma das mais expressivas mudanças sociais, políticas, econômicas e culturais desde da Segunda Grande Guerra. Imediatamente, agentes do teatro e da performance atuaram em resposta ao imenso desastre humano na tarefa de explorar maneiras para compreender e dar forma à era pós-Fukushima. Nesse sentido, esta comunicão busca debater três importantes obras artísticas que fizeram parte desse conturbado período: o espetáculo Sayonara”(versão 2011) de Hirata Oriza, o “teatro musical” Jimen to yuka (Chão de piso, 2013) de Okada Toshiki, e a performance “Referendum Project” (2011), de Akira Tarayama.

Palavras-chave: Japão; Arte japonesa; Fukushima; Pós-3.11.

  • Distopias não tão distópicas: o futuro como possibilidade nos audiovisuais animados japoneses das décadas de 1980-1990

Geovana Siqueira Costa (mestranda em História – UFRRJ, pesquisadora do CEA/UFF)

No âmbito do Japão contemporâneo, principalmente nas décadas de 1980-1990, houve a produção de variadas obras audiovisuais animadas a respeito de uma temática em comum: o futuro incerto ou distópico permeado por novas tecnologias (robótica, digital, etc.). Essas animações também foram influenciadas pela ficção científica e pelo movimento conhecido como cyberpunk.

Para Adriana Amaral (2006), o cyberpunk é um subgênero literário da ficção científica estadunidense que surgiu na década de 1980, e que também foi importante para a construção de uma “estética cyberpunk no cinema, influenciada pelo romantismo, pelas histórias de detetive e pelo gênero de horror. O subgênero é uma mistura entre cyber, que diz respeito ao mundo cibernético, e punk, atitude de crítica e contestação da autoridade ou de paradigmas.

No cyberpunk, muitas obras pertencentes ao subgênero apresentam questionamentos sobre os limites e impactos da emergência tecnológica na sociedade, e faz prognósticos críticos, e muito frequentemente pessimistas sobre o futuro. Dessa forma, o cyberpunk se tornou um meio de mostrar a modernização das sociedades de uma forma pessimista, obscura, desoladora e angustiante.

Mas ao contrário das obras estadunidenses, as obras japonesas nem sempre apresentaram uma construção audiovisual e narrativa fechada e pessimista. Tomando como exemplo Ghost In The Shell (1995), é possível perceber como o filme utiliza diversos elementos da estética cyberpunk, mas extrapola o tom decadentista, e vai além em sua reflexão sobre o futuro “distópico” de novas tecnologias. A obra parece colocar em evidência as possibilidades que estas podem oferecer, através da questão da variabilidade.

É certo que, como muitos autores já evidenciaram, há uma influência de um pensamento não-cartesiano, holista e influenciado pela ideia de impermanência durante a construção do pensamento japonês moderno, advindo do shintoísmo, do budismo, das suas artes visuais e da própria cultura popular. Tudo isso faz com que a construção dessas obras seja diferente da “ocidental”, marcada por uma perspectiva de mundo cartesiana, uma religião apocalíptica e principalmente pela ideia de decadência da sociedade. São, por isso, maneiras diferentes de se lidar com a modernização cada vez mais acelerada das sociedades.

Para este trabalho, no entanto, me concentro em como essa diferença pode ser percebida no audiovisual de animação japonês, e por isso a análise de sua forma (técnicas e composições) é fundamental, pois é justamente na incorporação da própria tecnologia da qual se fala na história que podemos ver mais nitidamente como esse pensamento se apresenta. Por exemplo, em Akira (1988), há uma narrativa de questões abertas, futuro incerto e ambíguo, assim como em Serial Experiments Lain (1998), que leva ao limite a ideia de experimentação de técnicas e visualidades, incorporando uma série de inovações na forma de se fazer animação, que em muito reflete as novidades tecnológicas que permeiam a história.

Dessa forma, meu intuito é refletir sobre as “vastas possibilidades”, no âmbito da construção de futuro “distópica” das animações japonesas dos anos 1980-90, e seu diálogo com um mundo em rápida modernização e incorporação de tecnologias.

Palavras-chave: cinema; tecnologias digitais; animação japonesa.

  • Rupturas e continuidades na cultura material e a chegada do budismo ao Japão (Séculos VI e VII)

Larissa Redditt (mestranda em Arqueologia – Museu Nacional da UFRJ, mestranda em Japanese Humanities – University of Kyushu, coordenadora e pesquisadora do GHAJ-LHER)

A afirmação de que os túmulos kofun, que dão nome ao período entre 250 e 710 EC da história japonesa, deixaram de ser construídos por conta da chegada do budismo ao arquipélago já vem sendo descontinuada pelos arqueólogos mas últimas décadas, mas ainda é lugar-comum entre historiadores ao abordar o período, especialmente na escassa bibliografia que chega ao Brasil. Para ter um panorama mais claro do declínio desta prática que esteve no centro da política, cultura e religião da sociedade por tantos séculos, faz-se necessário olhar para fatores e desenvolvimentos internos tanto quanto externos (i.e. chegada do budismo). A presente comunicação buscará traçar este panorama a partir de uma abordagem focada na cultura material funerária, mapeando rupturas e continuidades no registro arqueológico das fases finais do período Kofun (séculos 6 e 7), de forma a demonstrar que o declínio dos monumentos funerários é parte de um processo de mudanças sociais que já vinham ocorrendo de longa data antes da chegada do budismo, tendo sido este apenas uma pequena parte do processo.

Palavras-chave: História do Japão; período Kofun; cultura material.

  • Tajiki Kobayashi: expoente do Movimento Proletário no Japão Entreguerras

Ayumi Anraku (graduada em Letras Japonês – USP) & Ivan L. Lopes (graduado em Letras Japonês USP)

Takiji Kobayashi nasceu no interior da província de Akita, norte do Japão. Sua família tinha uma pequena propriedade, mas eles perderam as terras e, para tentar contornar as dificuldades financeiras, migraram para a província de Hokkaido. Assim, o autor cresceu como aqueles que ele posteriormente viria a tentar defender e instruir através de sua escrita. Expoente do movimento proletário japonês e membro do Partido Comunista, Takiji teve suas obras traduzidas para diversos idiomas, como inglês, alemão, russo, português e chinês.

A literatura proletária no Japão surgiu após a Primeira Guerra, tendo sido impulsionada pelos efeitos da guerra e pelas crises econômicas dos anos 20 e 30, e diretamente conectada ao surgimento e crescimento do Comunismo.

O Partido Comunista Japonês já estava na ilegalidade quando da filiação de Takiji devido à promulgação da Lei de Preservação da Paz de 1925, que justificou o início da perseguição policial, culminando na sua prisão, tortura e morte aos 29 anos de idade.

As obras do autor foram publicadas na Chuōkōron, revista literária na pela qual contos de escritores como Jun’ichirō Tanizaki e Ryūnosuke Akutagawa também eram publicados. Segundo Hori, há somente duas obras de literatura moderna do período pré-guerra que foram traduzidas e publicadas por editoras do exterior, sendo que uma delas é Kanikōsen.

Entretanto, críticos japoneses rejeitaram fortemente as ideologias estrangeiras que chegavam ao Japão naquela época, o que levou a uma recepção negativa das obras de Takiji por parte de autores contemporâneos a ele, como Shiga Naoya. Mesmo na atualidade, a ideologia que suas obras representam acabam por receber comentários parciais de seus críticos, tais como Donald Keene, renomado estudioso de literatura japonesa, que se refere à escrita de Takiji com desprezo, apoiando-se em argumentos tendenciosos.

Por outro lado, a recepção de suas obras pelo público foi positiva, e Kanikōsen é a única obra de literatura proletária que continua sendo reimpressa e lida até os dias de hoje, contando inclusive com uma nova adaptação cinematográfica (Japão, 2012) e uma adaptação em mangá (2006) com 160 mil exemplares vendidos em seis meses.

Diante da importância dessa obra no Japão no período entreguerras e sua repercussão atual, quando questões relacionadas às condições de trabalho são levantadas, em conjunto com o momento de extremismo socioeconômico do Brasil, pretendemos discutir o processo de tradução desta obra, focando nas questões socioculturais que servem de pano de fundo para a obra e a sua aplicação na transposição para o Português. Essa exposição será feita na forma de uma discussão entre os proponentes, que atuam como tradutores de obras dessa época, apresentando a relevância do autor no contexto do movimento proletário japonês, os demais movimentos sociais concomitantes e a relação entre eles, com o objetivo de expor e contrapor os pontos mais importantes encontrados.

Palavras-chave: Literatura japonesa moderna; literatura proletária; movimento proletário; Takiji Kobayashi; adaptações; tradução.

  • Uma visão moderna da revolta de Shimabara-Amakusa: Cristianismo como estratégia

Liana Vasconcellos (graduanda em História – Estácio de Sá) & Alexandre Toman (Docente – CEFET/RJ)

A Revolta de Shimabara-Amakusa (1637-1638) foi o primeiro conflito em larga escala do sistema bakuhan. O Sistema bakuhan era definido pelo balanço político-social entre dois níveis de poder: o bakufu/xogunato controlado pelos Tokugawa, sede da autoridade governativa, e os daimiôs (guerreiros de províncias), que gozavam de grande autonomia no seio dos territórios que administravam. O imperador e a corte imperial foram sujeitos a instruções que regulamentavam seu cotidiano, e direitos anteriormente usufruídos foram tirados. A política centralizadora passou a controlar todas as esferas da sociedade nipônica.

Sabe-se que da segunda metade do século XVI até a primeira metade do século XVII, ocorreu uma oposição entre cristãos e não-cristãos nos territórios onde o Cristianismo tinha se desenvolvido. Era pois interesse do bakufu suprimir essa rivalidade religiosa entre o povo antes que uma guerra civil eclodisse.

Começou no Castelo de Tomioka, uma fortaleza construída perto de Shiki, se estendeu para a ilha de Hondo e então atravessou o mar em direção a península de Shimabara, na Ilha de Kyushu. Tratou se simplesmente de mais uma revolta da classe camponesa, oprimida por altas taxas de impostos? Ou o despotismo senhorial de Matsukura Katsuie (Lorde de Shimabara) e Terazawa Katataka (Lorde de Amakusa) era a principal causa? O grupo de cristãos perseguidos pelo regime do Bakufu teve participação relevante?

A visão moderna dos historiadores é a de que o Cristianismo tenha sido usado como uma estratégia tanto pelos rebeldes como pelo próprio general Matsudaira Nobutsuna, líder da força xogunal designado para combater os revoltosos. Para as autoridades do bakufu o levante foi considerado uma revolta cristã do princípio até o seu final. Mas Nobutsuna sabia bem que durante o desenvolvimento da revolta muitas pessoas foram forçadas a se converterem ao Cristianismo e a se juntarem às forças combatentes.

Se o bakufu fizesse um ataque total ao Castelo de Hara, que foi tomado pelos revoltosos, pessoas inocentes iriam morrer pelas mãos do regime, o que era totalmente contra os princípios dos Tokugawa. A posição oficial era a proteção misericordiosa aos camponeses. Para Nobutsuna seria mais conveniente de que a revolta tivesse o caráter unicamente cristão para que o bakufu não ferisse seus princípios.

Embora o uso do Cristianismo fosse uma estratégia central, o fato é de que entre os rebeldes havia muitos cristãos, assim o Cristianismo, como estratégia, foi uma escolha lógica.

O propósito deste trabalho é apresentar o Cristianismo como estratégia da Revolta e como uma espada de dois gumes; uma ideologia poderosa que poderia servir aos interesses de ambas as partes envolvidas.

O principal referencial foi a tese de Nadja Kreeft Universidade de Leiden, escrita em 2011; Deus Resurrected a fresh look at Christianity in the Shimabara–Amakusa Rebellion of 1637.

Palavras-chave: revolta; cristianismo; Bakufu.

  • Um Corpo de Sol e Aço: Analisando discursivamente a relação entre memória nacional japonesa, crise social e o corpo em Yukio Mishima

Yasmim Pereira Yonekura (doutoranda em Letras Inglês – UFSC)

Partindo da perspectiva teórica da análise do discurso crítica, conforme proposto por Fairclough na obra Critical Discourse Analysis: The Critical Study of Language (1995), essa pesquisa visa analisar como o ensaio poético de Yukio Mishima, Sol e Aço (1968, 2003), articula discursivamente a relação entre memória nacional do Japão, a crise e mudança social após a Segunda Guerra Mundial e a ideia de corpo construída pelo autor. Mishima tem uma obra única na literatura moderna japonesa, onde articula uma idealização do passado nacional e os medos e anseios relativos aos dilemas sociais que o país passou após o ataque a bomba atômica. Apesar de sua narração memorialista venerar a tradição, Mishima era a personificação de várias contradições, como um homem gay numa sociedade tradicionalmente patriarcal e com profundo conhecimento da literatura ocidental, adotando um niilismo quase extremo. Assim como sua obra, a vida de Mishima foi a personificação dessa contradição: viveu buscando exaltar um padrão corporal rígido que era também amplamente venerado nos nichos de práticas homoeróticas da Tóquio do pós-guerra; lia Nietzsche e acreditava num niilismo quase irrefreável, mas usou do Hagakure, texto do século XVIII escrito pelo samurai-sacerdote Jōchō Yamamoto, para cometer o suicídio seppuku nos subúrbios de Tóquio em 1970. Partindo das contradições que o autor traz em sua vida obra, seleciono o texto Sol e Aço para investigar o lugar do corpo e a relação traçada entre a memória nacional e a ruptura social. Mishima seguia uma rígida rotina de treinos e o ensaio foi escrito com o objetivo de contextualizar o culto a forma como uma maneira de restaurar o corpo doente da infância e recuperar a memória nacional, sendo o corpo saudável de Mishima um epítome para a sua nação. Para além do culto à forma, vê-se na narrativa de Mishima uma rememoração da infância e da guerra, que ele relaciona com o seu próprio corpo doente durante os primeiros anos de sua vida. Assim, usando dos recursos da análise do discurso crítica e do contexto histórico vivido pelo autor, essa pesquisa irá investigar e apresentar mais elementos da relação entre corpo e nação, no que tange a rupturas, crises e ideais individuais e coletivos.

Palavras-chave: Corpo; Nação; Identidade Nacional; Análise do Discurso; Mishima.

 

Minicursos:

 

  • As Imagens Fotográficas do Pós-Guerra Japonês de 1950 a 1972: do realismo de Ken Domon ao “Adeus, Fotografia” de Daido Moriyama

Lucas Gibson (mestrando em Artes Visuais – UFRJ)

O presente minicurso tem como objetivo trazer um breve panorama sobre as imagens fotográficas produzidas no Japão no período do pós-guerra, analisando as mudanças de estilo na produção de imagens a partir de 1950, com foco especial nos fotógrafos Ken Domon, idealizador do realismo fotográfico, e Daido Moriyama, até a publicação de seu livro “Shashin yo Sayonara” (Adeus, Fotografia) em 1972. A fotografia produzida no Japão a partir de 1950 se concentrou primordialmente na documentação dos efeitos da Segunda Guerra Mundial para a sociedade japonesa. Os fotógrafos da época se dedicaram a registrar áreas urbanas destruídas, a derrota do povo japonês e a ocupação do território por uma potência estrangeira. O movimento do “realismo fotográfico” do pós-guerra foi encabeçado pelo fotógrafo Ken Domon em 1950, permanecendo um estilo popular durante as décadas de 1960 e 1970, ainda que carregasse alterações de estilo.

E nquanto Domon buscava estabelecer um legado da evidência em imagens que permitiriam uma extração mais objetiva da realidade, fotógrafos como Shomei Tomatsu e Miyako Ishiuchi e coletivos como o VIVO, atuantes a partir de 1954, buscaram um realismo mais subjetivo, caracterizado por uma presença mais intensa de possibilidades interpretativas, produzindo imagens que iriam além do simples enaltecimento ou condenação dos assuntos fotografados.

O estilo do fotógrafo Daido Moriyama (1938- ), por sua vez, se caracterizou por inovações experimentais que se distanciavam da estética do realismo fotográfico de Ken Domon e por outros fotógrafos do pós-guerra, embora grande parte de sua formação tenha advindo do contato com dois de seus mentores, Shomei Tomatsu e Eikoh Hosoe, que representavam uma forma mais subjetiva de captação da realidade. Grande parte de seus experimentos inventivos derivaram da participação na lendária revista Provoke, publicada entre 1968 e 1969, caracterizando uma publicação que buscava romper com os padrões tradicionais do realismo fotográfico. Para Moriyama, a fotografia não deveria buscar a representação de um contexto coerente, mas sim existir por si mesma. O desenvolvimento de um estilo próprio a partir de diversas influências o permitiu perceber a realidade de maneira muito particular, o que o levou a adotar abordagens que integrassem mais a realidade viva e suas diversas camadas.

O término deste minicurso culmina com a análise da publicação “Shashin yo Sayonara”, (Adeus, Fotografia) de Moriyama em 1972, livro que marcou o ápice de seus experimentos fotográficos provocativos. Comumente lembrado como um livro de imagens pouco nítidas, marcadas pela falta de foco, pelo grão intenso, o contraste elevado e os borrões, “Adeus, Fotografia” é uma publicação que também intensificava o debate sobre autoria imagética, por conter imagens apropriadas e que desafiavam a noção de originalidade. Em “Adeus, Fotografia”, o trabalho de Moriyama alcança enfim a condição de incompreensibilidade, exatamente o que o fotógrafo almejava desde o início de sua produção fotográfica.

Palavras-chave: Fotografia; Realismo; Pós-guerra; Ken Domon; Daido Moriyama; Adeus, Fotografia.

  • Nūberu bāgu, da crise do cinema nacional às feridas históricas: representações artísticas de uma sociedade pós-guerra

Vinicius Akiyoshi Aizono (bacharel em História – FFLCH-USP; graduando em licenciatura – USP)

O recorte temporal do cinema novo japonês se inicia no final da década de 50 e perdura até metade da década de 70. Assim como outros movimentos que ocorreram ao redor do mundo em períodos semelhantes como o Cinema Novo brasileiro e a Nouvelle Vague francesa (posteriormente serviu de referência para denominar o movimento japonês), todos procuravam revolucionar não apenas a forma de fazer cinema mas alterar sua estrutura interna, e não vai ser diferente no Japão.

No entanto, as peculiaridades da Nūberu bāgu se dá logo dentro do estúdio. Até então, a estrutura hierárquica interna de um estúdio de cinema era rígida, no qual qualquer aspirante a produtor ou diretor iniciava sua carreira como assistente geral e dedicava anos ou até décadas de carreira ao estúdio na esperança de alcançar o cargo desejado. Até a década de 50, a indústria cinematográfica japonesa vivia sua “era de ouro” com os famosos Jidaigeki (dramas históricos) com nomes proeminentes como Akira Kurosawa que já alcançava os críticos internacionais.

Porém, diferente da base criativa francesa que era composta em grande parte por intelectuais, críticos e cinéfilos, inicialmente os jovens japoneses procuravam apenas procurar ingressar no mercado de trabalho num período de crise econômica e tensão política, essa mesma tensão acumulada vai despertar a vontade de se expressar por meio das câmeras. Estes que ora foram assistentes da “era de ouro” com seu baixo orçamento mas com técnicas inovadoras que quebravam com as técnicas tradicionais, agora tem a oportunidade de criar, na medida que as grandes companhias como Shochiku e Nikkatsu reveem suas políticas e pensam no futuro da tendência cultural que acompanha seu tempo histórico.

Com base nos seguintes filmes e uma análise histórica da crise, a Nūberu bāgu conta com uma gama de diretores que ao longo dos anos tocam nas feridas do Japão pós-guerra. Um dos diretores que mais se destacam no movimento é Nagisa Ōshima com sua longa Noite e Neblina no Japão (日本の夜と霧) que faz uma crítica aos movimentos estudantis da esquerda que atuaram em protestos históricos como a oposição ao Tratado de Cooperação entre Japão e Estados Unidos e a expansão imperialista americana pelo leste asiático.

Seguindo este fio, o diretor Shōhei Imamura trabalha em Todos Porcos (豚と軍艦) com a relação exploratória e as consequências das bases militares americanas instaladas no Japão, criando um ambiente que abre portas para criminalidade, prostituição e a expõe a problematica pobreza que o governo insistia em omitir. Por fim, uma das expressões máximas de uma juventude que cresceu em meio ao caos da reconstrução do país, uma série de crises sociais, econômicas e políticas, o diretor Shūji Terayama dirige a longa Joguem Fora Seus Livros e Saiam às Ruas (書を捨てよ町へ出よう), uma obra experimental de rebeldia que se explica por um roteiro anárquico e sem linearidade. É importante ressaltar que cada longa que será discutido tem estilos característicos de cada diretor, permitindo uma análise do campo artístico sem perder o foco histórico sobre a crise pós-guerra.

Palavras-Chave: Cinema Novo Japonês; Militância Estudantil Japonesa; Japão pós-guerra; Crise cultural.

 

V Colóquio NEJAP de Estudos Japoneses – O Japão em Ruptura: Crises e Respostas na História Japonesa

10/10/2020 23:31

O NEJAP penou, mas adaptou-se aos tristes tempos atuais, e declara que o nosso colóquio anual será realizado em 2020, totalmente por via remota. Os tempos atuais, no entanto, são os condicionantes e catalizadores de nossa proposta para o V Colóquio NEJAP de Estudos Japoneses: vivemos diante de um mundo de crises políticas e de uma crise de saúde de proporções globais, e isso nos levou a elaborar uma proposta que dissesse respeito a como o Japão lida com tais situações, e quais tipos de crises marcaram sua história. Por isso abrimos hoje, 10/10, o período para envio de propostas para o V Colóquio NEJAP de Estudos Japoneses – O Japão em Ruptura: Crises e Respostas na História Japonesa. O período de envio de propostas vai de 10/10 a 15/11, e todos os proponentes receberão uma resposta com relação às propostas submetidas até, no máximo, 16/11. Depois disso, os proponentes deverão responsabilizar-se por gravar e enviar seu material até 29/11. Este será postado no canal do NEJAP no YouTube, mas ficará com acesso restrito aos inscritos no evento entre os períodos de 06/12 a 20/12. Depois disso, todos os vídeos ficarão disponíveis permanentemente em modo público.

Ouvintes interessados em inscrever-se podem fazê-lo preenchendo este formulário.

 

 

ORIENTAÇÕES PARA SUBMISSÃO DE PROPOSTAS
As propostas submetidas devem encaixar-se em um ou mais dos subtemas expostos abaixo. Elas poderão dar-se por duas modalidades: comunicação (vídeos de 20-40 minutos) e minicurso (vídeos ou playlists de 2-4 horas). Ao submeter sua proposta, os proponentes tacitamente declaram estar de acordo com a veiculação de sua apresentação no YouTube por meio do canal do NEJAP. Para ter sua proposta avaliada para o evento, basta enviá-la por e-mail para nejap@nejap.ufsc.br com o título “Proposta para V Colóquio (Minicurso/Comunicação)”. No e-mail, deverão informar nome, vínculo institucional e situação acadêmica, título da proposta, resumo de até 500 palavras (sem contar os espaços), 3 a 7 palavras-chave, e pelo menos 3 referências bibliográficas segundo as normas da ABNT. As comunicações apresentadas podem ser investigações em curso, não necessitando serem trabalhos completos, no entanto, a solidez da problemática de pesquisa será avaliada. É recomendado incoporar ao resumo a(s) fonte(s) primária(s) analisada(s) no trabalho, quando couber.
Aceitamos submissões de graduados e graduandos, e conferimos certificado de apresentação.

SUBTEMAS CONTEMPLADOS

  • Crises agrícolas, epidemias, e desastres naturais na história japonesa
  • Revoltas camponesas e de base
  • Protestos, militância trabalhista, estudantil, e de outras naturezas
  • Crises econômicas e demográficas
  • Respostas do Estado Japonês em tempos de crise
  • Narrativas memorialistas de tempos de crise
  • Tempos de crise na ficção: cinema, anime, mangás, literatura, jogos e outras mídias
  • Minorias étnicas e sociais japonesas: preservação cultural, marginalização e políticas públicas
  • A questão dekasegi: desafios, preconceitos, e identidade(s)
  • O Japão e a pandemia de COVID-19
  • Perspectivas do Japão pós-COVID-19

IV COLÓQUIO NEJAP DE ESTUDOS JAPONESES – O Horror e o Sobrenatural no Japão: Estudos Transversais – Cronograma Oficial

28/10/2019 19:18

O IV Colóquio NEJAP de Estudos Japoneses, intitulado “O Horror e o Sobrenatural no Japão: Estudos Transversais”, ocorrerá nos dias 31/10 e 01/11, no Auditório Elke Hering, Biblioteca Universitária (BU), campus de Florianópolis – SC. O colóquio oferecerá certificado de participação de 16 horas, não necessitando inscrição prévia, apenas assinatura em lista de chamada, e contará com 11 apresentações de trabalhos, e 2 exibições de filmes.

Além disso, exibiremos outros três títulos no dia 30/10, como uma prévia ao Colóquio (as exibições do dia 30/10 ocorrerão no Mini-Auditório CNM, 2º Andar, Bloco D – CSE): Onibaba (às 13:30), Ju-On (às 16:00), e Dark Water (às 19:00).

Segue a programação oficial, junto dos resumos de cada apresentação.

Para maiores informações, entrar em contato em nejap@nejap.ufsc.br ou acompanhar nosso evento no Facebook.

RESUMOS DAS APRESENTAÇÕES

O fantasma no cinema japonês – das origens literárias e teatrais ao cinema moderno

Demian A. Garcia, doutorando em Cinema (UPJV) e professor do curso de Cinema e Audiovisual (Unespar)

As histórias de fantasmas no Japão vêm principalmente da tradição oral e da literatura, antes de serem adaptadas para o teatro e depois para o cinema. O budismo e o shintoísmo contribuíram com esse imaginário, supondo um período de espera entre a morte e a reencarnação e se baseando no culto aos ancestrais. A representação dos espíritos que retornam é muito desenvolvida na arte popular e profana. A tradição dos espíritos vingativos (onryou) é encontrada nas histórias de fantasmas (kaidan) do teatro kabuki, encenadas durante o O-bon. Os fantasmas (Yûrei) do período Edo, vindos do teatro e principalmente do kabuki, vão atravessar a história do cinema desde os kaidan eiga, nos anos 1950 e 1960, até a chamada J-horror, a partir dos anos 1990. Depois de várias adaptações de peças do kabuki para o cinema no período do cinema mudo, o kaidan eiga tem sua era de ouro com o reaparecimento do jidai-geki, após o fim da censura imposta pela ocupação americana. Fantasmas de mulheres que voltam para se vingar como Oiwa ou Okiku, assim como as mulheres gato (kaibyô) dominam o gênero durante essas duas décadas. Mas os fantasmas não aparecem somente em filmes de horror, e estão presentes frequentemente na filmografia de Kenji Mizoguchi e Akira Kurosawa. Após desaparecer dos cinemas por muito tempo, por motivos diversos (a televisão, o cansaço dos filmes com a mesma temática, os filmes políticos, de filmes de yakusa, etc.), o fantasma vai voltar ao cinema na chamada J-Horror com influência dos mangás, do reaparecimento do fenômeno das fotos espíritas e da disseminação das lendas urbanas, como a da Hanako-san ou Kuchisake. Em um primeiro momento, são filmes que representam histórias ditas “reais” e falsos documentários, sendo distribuiídos principalmente em VHS. Não são mais fantasmas de kimono que saem dos pântanos; eles fazem parte do dia a dia do tokyoíta, nas escolas, nas ruas, nos prédios e nos ônibus. O vídeo, o telefone e a internet aparecem como um meio moderno de possessão (Ringu, Uma Chamada perdida, Kairo) colocando em evidência uma relação ambígua do japonês com a tecnologia. Mas mesmo com essa modernização, a influência do teatro tradicional japonês vai persistir na maioria das adaptações cinematográficas, seja na relação com o som: uma ligação direta com os códigos da música do kabuki; seja na parte visual: se conectando até mesmo às estampas que se inspiraram do teatro tradicional, representando o fantasma com cabelos despenteados, vestido de branco, etc. Essa comunicação busca traçar a história dos fantasmas no cinema japonês e suas origens.

Palavras-chave: fantasma; cinema japonês; kabuki; horror.

Um pardal no ninho da andorinha”: o sujeito, a tradição e a diáspora em The Terror: Infamy

Yasmim Pereira Yonekura, doutoranda em Letras Inglês (UFSC)

Sheng Mei-ma (2012) define que para construir a modernidade, os corpos asiáticos devem fazer a travessia transoceânica, seja esta imaginária ou material. De tal forma, o autor discute diáspora e deslocamento, definindo a relação Ásia-Ocidente como um processo de transformar o continente asiático, e seus sujeitos, em um fantasma. O autor também discute em seu livro “East-West Montage: Reflections on Asian Bodies in Diaspora” (2008) a singularidade da representação do corpo diaspórico e de quais significados culturais e geopolíticos ele evoca. No mesmo sentido, a segunda temporada da série The Terror – com o subtítulo Infamy – (AMC, 2019), aborda a relação entre o fantasma da “terra antiga” e os seus sujeitos na diáspora. O enredo gira em torno de Chester Nakayama, filho de imigrantes japoneses nascido nos EUA, e sua família, durante o processo de encarceramento de japoneses em campos de concentração na segunda guerra mundial. Além do horror social, um suicídio misterioso desencadeia uma série de eventos sobrenaturais, conectados pela presença de uma misteriosa gueixa desconhecida. A misteriosa aparição evoca Iwasaka e Toelken, que propõem que a relação entre a sociedade japonesa e seus fantasmas está constantemente numa dialética de rearticulação das tradições antigas com a contemporaneidade do país (1994) no livro “Ghost and the Japanese: Cultural Experience in Japanese Death Legends”, exercendo diversas funções, das religiosas até as psicossociais. Assim essa pesquisa visa investigar como o seriado The Terror: Infamy articula a travessia transoceânica de sujeitos diaspóricos e a rearticulação da tradição através do horror sobrenatural e do resgate das memórias do horror social. De tal forma, essa pesquisa investigará o protagonista Chester Nakayama e sua família, como a vivência da repressão nos campos de concentração se relaciona com as questões dos sujeitos diaspóricos e com o elemento sobrenatural que perpassa a vida da comunidade durante a intervenção do governo dos EUA.

Palavras-chave: horror; terror; sobrenatural; diáspora; raça.

Buscando representações do feminino na obra de Shigeru Mizuki: Estudos Iniciais

Clara Állyegra Lyra Petter, bacharel em Letras Japonês (UFRGS) e especialista em Tradução (PUCRS)

Quando falamos atualmente de narrativas do sobrenatural japonês, o conteúdo ao qual grande parte do público tem acesso e consome, seja doméstico ou exportado, são produtos da cultura pop: mangá, anime, filmes, light novel, etc. Nesse panorama, na mesma medida em que consideramos Osamu Tezuka como “pai” do mangá e anime pelo impacto de suas obras em toda produção posterior, Shigeru Mizuki é considerado como “pai” do imaginário yōkai moderno. Este termo, yōkai, é uma palavra de uso relativamente moderno, originada em 1896 com o livro Yōkaigaku kōgi, e que busca englobar todo e qualquer relato de evento ou ser sobrenatural. A obra de Mizuki foi, e ainda é, uma influência inegável não só para os produtores de conteúdo da cultura pop, remodelando o imaginário visual e discursivo (cf. FOUCAULT, 1996) dessas aparições, como para pesquisadores de yōkaigaku, os estudos de yōkai. O autor foi o expoente mais expressivo da fundação do yōkai moderno, revitalizando essa área numa época que presenciou a diretiva da abolição do Estado Shintō e a grande influência da cultura e da filosofia ocidental no pós-guerra. Quando observamos narrativas sobrenaturais, chama atenção a grande quantidade de personagens femininas relevantes no gênero, como a figura da bruxa ocidental (majō) e diversas yōkai e yūrei, entre algumas mais famosas: Yuki-onna, Kuchi-sake-onna, Hanako-san, Okiku, Oiwa, Otsuya. Assim, neste estudo, busca-se respostas iniciais para a seguinte questão: quais representações de feminino podemos encontrar nas histórias sobrenaturais de Shigeru Mizuki? A intenção é descrever as representações encontradas e explicitar possíveis relações entre elas. Será utilizado como método a análise de conteúdo (cf. BARDIN, 2011) com triangulação de dados. Na pré-análise, para compreender o panorama histórico da área e do autor, assim como para entender outras representações do sobrenatural, serão mobilizados Davisson (2015), Foster (2008; 2015) e Kazuhiro (2017). Foram selecionadas para análise Kitaro (2013), The Great Tanuki War (2017) e Nonnonba (2018), fundamentais para a compreensão da obra de Mizuki na perspectiva dos estudos de yōkai. Dada a relevância e a influência da obra de Mizuki na cultura pop japonesa e nos estudos de yōkai, espera-se que mapear as representações femininas nas suas narrativas marcadas pelo imaginário sobrenatural pode ajudar a compreender como o feminino é representado em outras obras do gênero.

Palavras-chave: Shigeru Mizuki; representação feminina; folclore; estudos japoneses; análise de conteúdo.

Nacionalismo japonês no pós Segunda Guerra Mundial: tradição, sistema Ie e casamento fantasma no filme Ugetsu Monogatari (1953)

Marina de Jesus Amaral Spíndola, mestranda em História (UNIFESP)

Este estudo tem como objetivo analisar a obra Ugetsu Monogatari (1953) do diretor Kenji Mizoguchi, buscando ressaltar, mediante o contexto histórico de criação do filme, as necessidades dos japoneses de restituírem a memória dos ancestrais e dos falecidos no pós Segunda Guerra Mundial, através de uma obra cinematográfica, ficcional. Para tanto, será necessária uma investigação cautelosa sobre os diálogos, símbolos e iconotextos presentes no filme, que revelem as relações com os ancestrais, – sempre presentes no cotidiano familiar – e com aqueles que morreram precipitadamente, sem que pudessem gerar herdeiros ou se tornarem parte, de fato, de um panteão histórico familiar. Reconhecendo a importância e expectativas criadas historicamente sobre a família (Ie) e o sistema de deveres e obrigações para com a comunidade no Japão, acreditamos que Kenji Mizoguchi, em Ugetsu Monogatari, objetivou chamar a atenção do público japonês para um problema social, geracional causado pelas destruições advindas da Segunda Guerra Mundial, de forma metafórica, resgatando os contos de Ueda Akinari para denunciar a corrupção dos valores tradicionais japoneses no pós-guerra. Segundo a leitura da obra, neste estudo, pretendemos demonstrar como os espíritos e aparições fantasmagóricas em Ugetsu Monogatari são resultados de uma realidade bélica, que corroborou para esfacelar os ideais familiares, implicando em perdas de valores morais dentro da sociedade japonesa.

Palavras-chave: sistema Ie; Japão; Segunda Guerra Mundial; horror; cinema.

Simulacros e Rostilidade em Helter Skelter

Alice Grosseman Mattosinho, mestranda em Ciências da Linguagem (UNISUL)

Enquanto nos anos 50 e 60 o mercado de quadrinhos estadunidense sofria com a censura (NYBERG, 2009), o início dos anos 60 no Japão foi marcado com a evolução e crescimento no número de publicações de mangás (histórias em quadrinho japonesas) voltados para o público feminino, reação que coincide com mudanças de papéis de gênero para mulheres. A inserção cada vez maior dos mangás shoujo (quadrinhos para mulheres) acabou por fomentar uma geração inteira de garotas leitoras e também criadoras de mangás (SPIES, 2003). Dentre autoras de sucesso está Kyoko Okazaki, criadora do mangá “Helter Skelter”, publicado entre 1995 e 1996. A obra foi um sucesso de vendas e em 2012 é lançado um filme de longa metragem baseado no mangá de drama e horror de mesmo nome.

“Helter Skelter” apresenta a história de Liliko, uma modelo famosa no Japão com grande sucesso em sua carreira, inúmeras cirurgias plásticas e uma vida no limite do alcoolismo. Vê suas pequenas imperfeições, resultado de tantas cirurgias em seu rosto e corpo, aparecendo com cada vez mais frequência e, por isso, sente sua carreira ameaçada por modelos mais jovens, chegando ao ponto de ordenar que sua assistente jogue ácido no rosto da noiva de seu amante. É investigada por um detetive que busca descobrir as ilegalidades da clínica onde a protagonista e outras modelos realizam suas cirurgias estéticas. Em diversas ocasiões o detetive menciona que Liliko move-se como se seu corpo não fizesse sentido com seus músculos. Sendo Liliko a tentativa de um ideal de beleza, remonta-se ao conceito platônico do simulacro, estudado por Gilles Deleuze. Para o autor, um simulacro é uma imagem degenerada, uma imagem que se insinua contra a Ideia, diferentemente da cópia da imagem, cópia da Ideia. “A cópia não parece verdadeiramente a alguma coisa senão na medida em que parece à Ideia da coisa. O pretendente não é conforme ao objeto senão na medida em que se modela (interiormente e espiritualmente) sobre a Ideia.” (DELEUZE, 2000, pg. 4). A beleza de Liliko é a versão degenerada, o simulacro do ideal do belo, remontada a cada corte cirúrgico que sua carne recebe. A estrutura do mangá reforça o rosto de Liliko e das outras modelos, com uma semelhança (intencional ou não) nos traços, reforçando uma repetição exacerbada de um padrão visual e de um plano para o tipo de quadro em zoom. Considerando a profissão de modelo, o rosto torna-se um ícone e um afeto, e a repetição dos rostos nos quadros cria uma multiplicidade, um vício. “A imagem-afecção é o primeiro plano e o primeiro plano é o rosto…” (DELEUZE, 2018, p. 141).

A partir desses dois conceitos deleuzianos de simulacro e rostilidade, o objetivo desta pesquisa em curso é realizar uma análise estética para explorar o tema acerca da representação gráfica e narrativa visual apresentados no quadrinho e como interferem o na apresentação visual da protagonista e nos rostos das personagens.

Palavras-chave: Helter Skelter; shoujo; horror; rostilidade; Deleuze; quadrinhos.

O olho e o sangue: um diálogo entre Garyou Tensei e Cobras e Piercings

Wanderson Tobias Rodrigues, mestrando em Literatura (UnB)

Cobras e Piercings, título que concedeu o Prêmio Akutagawa de Literatura à Hitomi Kanehara em 2004, é uma obra regada a suspense e violência, trazendo a história de uma jovem japonesa (Lui Nakazawa) em seu trajeto de modificação corporal, enquanto enfrenta uma série de violências (físicas e psicológicas) no cenário do Japão contemporâneo. Um dos processos escolhidos pela personagem é o de ter as suas costas tatuadas, decidindo por ter um dragão e um kirin gravados em sua pele, entretanto a personagem faz uma única exigência ao tatuador, para que ele não desenhe os olhos no dragão e nem no kirin. A razão pela qual a protagonista decide por não ter a sua tatuagem “terminada” é a superstição trazida pela lenda de Garyou Tensei, na qual um pintor é contratado para preencher um mural e acaba por produzir a imagem de quatro dragões no mesmo. De inesperado, o artista decide por deixar sem pintar a área dos olhos das bestas, pois acredita que se os fizesse por completo, eles iriam criar vida e voariam para fora da imagem. Diante dessa decisão estranha e supersticiosa, o contratante se interpõe e exige que ele as complete, de modo que ao realizá-lo, de fato os dragões criam vida e voam embora. A partir disso, propomos na corrente pesquisa a analisar a influência da lenda e suas consequências provocadas na narrativa de Kanehara, levando em consideração que as tatuagens passam a assumir um significante na identidade da protagonista até o desfecho da obra, quando a jovem decide por concluir a tatuagem e tatuar os olhos dos seres. Nesse processo, podemos identificar o sentimento masoquista da jovem, permitindo ao leitor viver momentos de suspense a aflição diante da decisão repentina da protagonista, permitindo-nos questionar como uma superstição antiga ainda provoca receio e interfere em na comunidade jovem do Japão.

Palavras-chaves: Cobras e Piercings; Garyou Tensei; superstição; tatuagem.

Naufrágios: da tradição cruel ao terror, uma narrativa aberta ao questionamento de valores

Jovanca Kamizi Ichikawa, graduanda em Letras Japonês (UFPR)

A obra Naufrágios (2003 [1982]) de Akira Yoshimura conta a história de uma aldeia que para não morrer de fome utiliza-se de uma prática cruel, no entanto, essa tradição leva esse povoado aos seus dias de terror. Este estudo visou analisar a representação do terror e do horror em Naufrágios, de forma a perceber como a narrativa, os elementos e a linguagem literária, aproximam o leitor de uma possível aceitação e conformação com a crueldade praticada pelos aldeões. Além disso, buscou entender a coexistência do sublime e do grotesco na obra, para poder delinear a possibilidade de compreensão da relação entre aquilo que choca e comove, para assim identificar como o leitor percebe o contraditório, numa narrativa aberta ao questionamento de valores. A metodologia utilizada foi a pesquisa descritiva de cunho bibliográfico, com uma abordagem qualitativa. Para compor a discussão e análise da obra, foram utilizados os teóricos Lovecraft (1987 [1973]), King (2012, [1981]), Hugo (2007 [1827]), Kayser (1986 [1957]), Carroll (1999 [1991]), entre outros. Espera-se com esse trabalho poder abrir uma discussão sobre sobrevivência, quais limites aceitáveis, refletir sobre crueldade, terror, horror, perda da infância, doenças e tráfico humano, num âmbito ficcional, que talvez muito próximo à realidade. Uma reflexão sobre o ser humano atravessado pelo terror e horror em suas distinções.

Palavras-chave: ficção; grotesco; horror; literatura japonesa; Naufrágios; terror.

Xintoísmo e Produção de Presença – A espiritualidade no mangá Mushishi

Guilherme Silva, mestrando em Ensino de História (UDESC)

As histórias em quadrinhos invadiram o século XX com força total, tanto no ocidente, quanto no oriente, tornando-se uma referência constante na cultura global. Nesta pesquisa, intento contribuir para a pesquisa histórica a partir de fontes iconográficas – sem esquecer a dos estudos orientais – ao analisar o mangá Mushishi (1999-2008). Fontes históricas, dadas a múltiplas abordagens, com um interrogatório qualificado aos quadrinhos, podem revelar também múltiplas experiências, como o silêncio da espiritualidade, a dilatação do tempo e mesmo a sobrevivência de sensibilidades ancestrais. É na análise dessas questões que o trabalho encontra diálogo com a estética da recepção, pois desenvolve aporte teórico inspirado na Teoria da Presença de Hans Gumbrecht (2010). Esta proposta sustenta que a recorrência das formas Shintô no mangá Mushishi, associadas à politécnica da arte e da edição empregadas nos mangás, têm como resultado a “Produção de Presença” material – causando impressões nos corpos humanos – de um passado tradicional antes distanciado. Assim, verifico como uma história em quadrinhos, com todos os seus elementos, contribui para um processo complexo, de compreensão sensitiva de tempo e de espaço, o qual pretendo expor e entender com auxílio do exame das ferramentas de presentificação.

Palavras-chave: Produção de Presença; mangá; xintoísmo; Japão; presentificação.

Godzillas e a Guerra Fria: contribuições da história social do cinema e o clássico de horror japonês

Gustavo Henrique Shigunov, bacharel em História (UFSC)

Esta comunicação visa discutir, a partir dos filmes Godzilla (1954) e sua versão “americanizada” Godzilla, o monstro do mar (1956), as aproximações entre história e cinema. Em contexto de Guerra Fria na década de 1950, os filmes de ficção científica e de horror não só tensionavam os eventos da Segunda Guerra Mundial mas também as angústias, medos e ansiedades do futuro tecnológico, marcado pela disputa atômica entre Estados Unidos e União Soviética. Nesse sentido, representando as consequências políticas e sociais das bombas atômicas no Japão pós-guerra, Godzilla torna-se um paradigma no cinema de horror japonês, exercendo enorme influência cultural tanto nacionalmente quanto internacionalmente. Com base na perspectiva teórica da história social do cinema, pretende-se analisar criticamente a produção original japonesa e sua versão adaptada nos moldes hollywoodianos, problematizando suas respectivas produções, distribuições e recepções cinematográficas. Cotejando o contexto histórico da Guerra Fria com os aspectos das produções, bem como suas características e temas, procuramos inserir o cinema clássico de horror japonês nas discussões e relações interdisciplinares entre o campo da história e do cinema.

Palavras-Chave: Godzilla; cinema japonês; Guerra Fria; história social do cinema.

A Família Celeste: considerações sobre a existência de um panteão no seio do Shintō

Márcio Cardoso Lisboa Jr., graduando em História (UFSC) e membro do NEJAP

Como qualquer expressão religiosa tradicional, o Xintoísmo possui uma narrativa mítica de origem, e como peculiar dos politeísmos, possui uma narrativa teogônica que explica a origem de suas divindades. Tais elementos também podem ser observados em outros politeísmos, como o greco-romano. Em sua prática, porém, o politeísmo greco-romano demonstra um elemento de “divindades locais” que destoa da narrativa de um Panteão, ou uma “família celeste”. Perante tal constatação, uma pergunta então deve ser feita: o Xintoísmo, em sua prática, possui elementos, assim como a religiosidade mediterrânea, que botam por terra a noção de um “Panteão dos Kami”?

Busca-se aqui então desconstruir a noção do Shinto como uma religião de cânone único, usando a classificação de múltiplos santuários descrita nos dez primeiros livros do Engi Shiki, como plataforma para iniciar o argumento de uma possível semelhança entre o que teoriza aqui como o “Shinto real” e a descrição do paganismo mediterrâneo apresentada no clássico “A Cidade Antiga”, de Fustel de Coulanges. Como pontes para o problema, se apresentam os dois primeiros livros do Nihon Shoki como uma espécie de teogonia do Shinto, em face da Teogonia de Hesíodo como exemplos da visão de Panteão que se intenciona descontruir neste trabalho.

Palavras-chave: Shinto; Paganismo; Panteão; Engi Shiki; Nihon Shoki.

Profecias, Fantasmas, e Maldições: o Sobrenatural no Imaginário Guerreiro e na Guerra no Japão medieval

Kauê Otávio, graduando em História (UFSC) e coordenador do NEJAP

Lugares-comuns nos gunkimonogatari, épicos de guerra japoneses, são o “anúncio de nomes” (nanori), as saraivadas de flechas sibilantes ao início da batalha, as disputas entre guerreiros de um mesmo lado para ver quem será o primeiro a chocar-se contra o inimigo, a prática da caça às cabeças (buntori), e o suicídio ritual (seppuku) quando tudo mais fracassa. No entanto, embora menos comuns, estas mesmas narrativas são ricamente permeadas pela presença de divindades protetoras, fantasmas vingativos, favores divinos, armas sagradas, sonhos premonitórios, ocorrências ominosas, presságios, e ritos mágico-religiosos para influenciar o resultado de batalhas e campanhas. O presente estudo pretende voltar-se para este aspecto menos estudado dos épicos de guerra, que aqui chamarei de presença do “sobrenatural” na guerra e no imaginário guerreiro.

Como objetivo primário, para além de definir o sobrenatural como categoria analítica, pretendo dividir os múltiplos fenômenos categorizados como sobrenaturais em grandes grupos, de modo a formar, inspirado pela obra de Vladimir Propp, uma “morfologia” do sobrenatural nas narrativas de guerra, com foco especial para os gunkimonogatari. Para além disso, pretendo analisar o complexo jogo entre crença sincera e usos políticos e ideológicos do sobrenatural nas narrativas analisadas, tentando delimitar a tênue barreira que muitas vezes separa um fenômeno do outro, e revelar a complexidade dos usos do sobrenatural nessas narrativas, e seu peso no imaginário e nas crenças dos samurais do fim do período clássico a meados da idade média japonesa (séculos X a XIV, mais especificamente). Alcançando tais objetivos, pretendo com o presente estudo ampliar a discussão mais geral sobre a história militar do Japão, e colocar em primeiro plano a muitas vezes ignorada relação entre a guerra, a religião, as crenças, e o incompreensível.

Palavras-chave: guerra e religião; guerra e sobrenatural; idade média japonesa; crenças dos samurais; práticas divinatórias; presságios; criaturas folclóricas.

IV Colóquio NEJAP de Estudos Japoneses – O Horror e o Sobrenatural no Japão: Estudos Transversais

15/07/2019 16:02

Seguindo a tradição que instituímos em 2016, é com muita satisfação que anunciamos que o NEJAP vai para seu quarto Colóquio anual, desta vez com uma proposta bastante diferente: o estudo do horror e sobrenatural no Japão, abrangendo as mais diversas mídias – do folclore ao cinema – e as mais diversas áreas de estudo: antropologia, história, estudos folclóricos, literatura, psicologia, cinema, teatro, artes visuais, sociologia, dentre outras.
O evento, auspiciosamente, ocorrerá dia 31/10, podendo ser estendido para 01/11 se houver necessidade, e será precedido por exibições de clássicos do terror japonês, anunciadas a seu tempo.

Para isto, convidamos a todos a enviarem propostas para comunicações orais de 25 minutos.

TEMAS CONTEMPLADOS

 

As propostas enviadas devem contemplar um dos tópicos abaixo, propondo-se a analisá-lo de maneira crítica, por meio dos instrumentos formais de análise da área de estudos em questão, seja esta a antropologia, sociologia, história, história da arte, teoria literária, análise do discurso, psicologia, ou outras áreas das Humanidades:

  • Horror no cinema, literatura, quadrinhos e outras mídias no Japão
  • Folclore e lendas urbanas japonesas
  • A representação do sobrenatural nas artes visuais
  • Presença do sobrenatural em relatos do passado e presente
  • Superstições e sua influência no cotidiano japonês
  • Práticas mágicas no Japão através dos tempos
  • Horror, lendas, e relações sociais e de gênero

Caso algumas propostas submetidas não encaixem-se completamente em uma das áreas acima, as mesmas serão analisadas pela comissão organizadora do evento, caso por caso.

 

REGRAS PARA SUBMISSÃO DE PROPOSTAS

 

Interessados em enviarem propostas devem seguir as regras dispostas acima, enviando um e-mail para nejap@nejap.ufsc.br com o título “Proposta para IV Colóquio”. No e-mail, deverão informar nome, vínculo institucional e situação acadêmica, título da proposta, resumo de até 500 palavras (sem contar os espaços), 3 a 7 palavras-chave, e pelo menos 3 referências bibliográficas segundo as normas da ABNT. As comunicações apresentadas podem ser investigações em curso, não necessitando serem trabalhos completos, no entanto, a solidez da problemática de pesquisa será avaliada. É recomendado incoporar ao resumo a(s) fonte(s) primária(s) analisada(s) no trabalho, quando couber.
Aceitamos submissões de graduados e graduandos, e conferimos certificado de apresentação.

Atenciosamente, Equipe NEJAP

Palestra de Bolsas do MEXT para estudos no Japão será realizada dia 22/04

16/04/2019 15:41

Nesta próxima segunda-feira, dia 22/04, o Consulado Geral do Japão em Curitiba – em parceria com o NEJAP e o Curso de Extensão em Japonês da UFSC – estará realizando sua palestra anual sobre as bolsas do MEXT para graduação e pós-graduação no Japão. A palestra visa esclarecer os processos de inscrição e seleção de bolsistas, as modalidades de bolsas ofertadas, e sanar dúvidas dos interessados. O início da palestra será às 19 horas, e esta será realizada no Auditório Elke Hering, no prédio da Biblioteca Universitária (BU).

Compareçam, e venham conhecer esta excelente oportunidade de estudos no exterior!

 

Programação do “Terceiro Colóquio NEJAP de Estudos Japoneses – Relações Japão-mundo: Perspectivas Históricas, Culturais e Sociais”

12/11/2018 21:35

O NEJAP realiza nesta terça-feira, dia 13/11, seu terceiro colóquio, tradição iniciada três anos atrás. Em homenagem aos 110 anos de imigração japonesa ao Brasil, a programação girará em torno dos intercâmbios culturais, sociais, econômicos e políticos que o Japão manteve com o mundo ao longo de sua história, pondo abaixo de uma vez por todas as falaciosas noções de que na história do Japão predominou o isolacionismo, de que o afastamento geográfico para com o continente serviu como obstáculo para contatos, e de que o Japão é culturalmente fechado, avesso a intercâmbios com outros povos.

O evento concederá separadamente certificado de 4 horas para os ouvintes da parte da tarde, e 3 horas para os participantes do minicurso, na parte da manhã.

Segue a programação do evento:

MANHÃ – MINICURSO

MINICURSO: A HISTÓRIA MILITAR DO IMPÉRIO DO JAPÃO NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XX (09:00 – 11:30)
Ministrante: Hugo Gabriel de Souza Leão Machado (mestrando de Relações Internacionais pela PPGRI-UFSC, e membro do NEJAP)

Resumo: na primeira metade do século XX, o Japão emergiu como uma das maiores potências militares do mundo, conquistando diversos territórios na região Ásia-Pacífico. O principal motor da fase expansionista japonesa foi o processo de reestruturação política que o país atravessou durante a Restauração Meiji (1868). O retorno do Imperador ao poder serviu para unir o país em torno de um objetivo principal: a sua ascensão como importante líder internacional. Desde então, o governo japonês passou a traçar o plano de expansão territorial do país, com o objetivo de formar na Ásia Oriental o Grande Império do Japão, o qual foi intitulado de Esfera de Co-prosperidade do Leste Asiático. A partir da crença do dever nipônico de liderar os povos asiáticos, o Japão deu início a sua expansão territorial. Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1917) os japoneses estiveram ao lado de britânicos e americanos, o que garantiu a sua atuação quase que exclusiva na frente oriental. A partir desse conflito, o Japão conquistou importantes territórios, antes ocupados pelos alemães, na parte continental da Ásia. A sua aliança com o ocidente perdurou até meados da década de 1930, quando o governo japonês, percebendo que não contaria com o respaldo norte-americano para suas ações militares, decidiu se retirar da Liga das Nações. Desde então, houve um escalonamento de tensão no Nordeste Asiático, com a ocupação japonesa na Manchúria (1931) e Nanquim (1937), eventos que culminaram na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Esse conflito teve seu término em agosto de 1945, quando duas bombas atômicas, das Forças Armadas norte-americanas, foram lançadas sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki. A derrota nipônica na guerra implicou no fim do seu plano expansionista na Ásia, uma vez que as Forças Armadas do Japão foram desmanteladas, durante a fase de ocupação militar no seu território (1945-1952). A história militar nipônica, no período acima elencado, é bastante interessante para a compreensão da política de defesa do país durante a Guerra Fria e atualmente. A imagem do Japão pacifista foi construída durante a Guerra Fria, a partir da adoção de uma agenda de política externa voltada a diplomacia multilateral voltada, principalmente, para assuntos econômicos.
Palavras-chave: Japão; Expansionismo; História da Guerra

TARDE – COMUNICAÇÕES ORAIS

O ZENRIN KOKUHŌKI DE ZUIKEI SHŪHŌ E AS RELAÇÕES DO JAPÃO COM O CONTINENTE ASIÁTICO ENTRE OS SÉCULOS XI-XV: COMÉRCIO, RELIGIÃO E DIPLOMACIA (14:00 – 14:40)
Comunicador: Kauê Otávio (graduando em História pela UFSC, e membro do NEJAP)

Resumo: a obra Zenrin Kokuhōki, escrita em 1470 pelo monge Zuikei Shūhō, foi uma das primeiras tentativas de se escrever uma história das relações internacionais do Japão, e seu objetivo era servir de guia para a condução das boas relações com os vizinhos asiáticos, sobretudo a China Ming. A presente pesquisa, em estágio preliminar, pretende apresentar um pouco desta curiosa obra, ao mesmo tempo que sumariza os pontos centrais de cinco séculos de relações internacionais do Japão, dos séculos XI ao XV, em seus principais eixos: o econômico, o religioso, e o político.
Palavras-chave: Japão Medieval; Relações Japão-China; Relações Internacionais do Japão; Budismo; Comércio Marítimo Asiático

SAKOKU: SUAS ORIGENS, SUAS INTERAÇÕES E SEU FIM (14:40 – 15:20)
Comunicador: Márcio Cardoso Lisboa Junior (bacharel em Direito pela UNIVALI, graduando em História pela UFSC, e membro do NEJAP)

Resumo: o Japão século XVII foi marcado por uma política chamada Sakoku: o fechamento total de suas fronteiras para estrangeiros e a proibição de saída para seus cidadãos. Ou pelo menos, esta é a versão “oficial”. Esta apresentação tem como objetivo mostrar o Sakoku sob outra ótica: Como um processo/projeto histórico e com uma flexibilidade muito maior do que a imaginada pelo senso comum.
Palavras-chave: Sakoku; Japão; Isolacionismo; Reabertura

IMIGRAÇÃO JAPONESA NO BRASIL E EM SANTA CATARINA: PEQUENO HISTÓRICO DA IMIGRAÇÃO JAPONESA AO BRASIL E SUA CONTRIBUIÇÃO À ECONOMIA CATARINENSE (15:20 – 16:00)
Comunicador: Iochihiko Kaneoya (bacharel em Direito pela USP, pesquisador independente de cultura japonesa e coordenador do Nipocultura)

Resumo: no ano em que se comemora os 110 anos da Imigração Japonesa no Brasil, este estudo pretende apresentar um panorama geral de como se deu o processo de imigração dos japoneses ao território brasileiro, incluindo ao estado de Santa Catarina, e analisar sua contribuição na economia local.
Palavra-chave: Imigração Japonesa no Brasil; Imigração Japonesa em Santa Catarina; Aniversário de 110 anos da Imigração Japonesa

16:00 – 16:20 – Intervalo

DO PERIGO AMARELO À MINORIA MODELO: IDENTIDADE NIKKEI, RELAÇÕES RACIAIS BRASILEIRAS E CONTEMPORANEIDADE (16:20 – 17:00)
Comunicadora: Gabriela Akemi Shimabuko (graduanda em Ciências Sociais pela Unesp/FCLAr)

Resumo: no Brasil, onde existe a maior população “japonesa” fora do Japão, prevalece a ideia dessa demografia enquanto estrangeira, sustentada pela construção de uma brasilidade homogênea e excludente. Articulando conceitos de cidadania, pertencimento e assimilação dentro do panorama histórico da formação do Estado-nação brasileiro e no cenário internacional, pretendo explorar o papel ambíguo de nikkeis nas relações raciais brasileiras e as constantes negociações identitárias que permitem a instrumentalização de “japoneses” por discursos fascistas, tanto presentes quanto do passado. O fenômeno – histórica e politicamente construído – da “mobilidade racial” nipo-brasileira aprofunda a questão dos processos de racialização no Brasil e na América Latina, exigindo uma discussão que abarque não somente o “outro”, mas que questione também a branquitude e a própria de “Ocidente”.
Palavras-chave: 
Relações Raciais; Identidade Nikkei; Minoria Modelo; Perigo Amarelo

DO PACIFISMO DA CONSTITUIÇÃO DE 1947 AO MILITARISMO NOS GOVERNOS KOIZUMI (2001-2006) E ABE (2006-2007): A REDEFINIÇÃO DA POLÍTICA DE DEFESA DO JAPÃO NO SÉCULO XXI (17:00 – 17:40)
Comunicador: Hugo Gabriel de Souza Leão Machado (mestrando de Relações Internacionais pela PPGRI-UFSC, e membro do NEJAP)

Resumo: em maio de 1947, entrou em vigor uma nova Constituição do Japão, conhecida por seu caráter pacifista, ela foi responsável por extinguir as Forças Armadas do país e, assim, dar início a uma nova fase na Política Externa japonesa. Durante os anos da Guerra Fria, o governo nipônico perseguiu uma agenda política centrada em questões de âmbito econômico, fruto do pacote de diretrizes conhecido como Doutrina Yoshida, que incluía também a nãointervenção em conflitos externos. Naquele momento, o principal pilar da Política de Defesa do Japão era a aliança militar formada com o governo estadunidense, em 1952, que garantia a proteção do território nipônico contra eventuais ataques. Após o fim do conflito, no início dos anos 1990, os debates sobre a possibilidade de renovação da agenda de defesa do Japão emergiram, principalmente, devido às pressões para que o país tivesse uma atuação políticomilitar condizente aos seus status de potência econômica. No século XXI, os governos de Junichiro Koizumi (2001-2006) e Shinzo Abe (2006-2007), ambos pertencentes ao Partido Liberal Democrata do Japão (PLD), foram responsáveis por uma redefinição da Política de Defesa japonesa, sob a justificativa de readequar o país ao novo ambiente de segurança nas esferas regional e internacional. Entretanto, fatores de ordem doméstica, como: o crescimento do nacionalismo e a ascensão do militarismo na agenda política do PLD surgem como prováveis hipóteses a redefinição da agenda política japonesa contemporânea. Partindo da análise de hipóteses de ordem sistêmica e doméstica, o objetivo desse trabalho é investigar as razões para a mudança de caráter da política japonesa, saindo do pacifismo da sua Constituição ao crescimento do militarismo no presente século. Para tanto, duas abordagens teóricas de Relações Internacionais servirão como lentes de análise para o objeto de estudo proposto, são elas: o Realismo Pós-Clássico e o Realismo Neoclássico. 
Palavras-chave:
Japão; Política de Defesa; Militarismo

 

 

Agradecimentos

10/03/2016 02:54

É com enorme prazer que divulgamos a lista dos doadores que contribuíram com nossa campanha na Kickante, “Financiamento para o NEJAP (Núcleo de Estudos Japoneses) da UFSC”. Devemos a cada um de vocês os nossos mais sinceros e profundos agradecimentos. Por mais que tenhamos ficado muito abaixo da meta desejada, sua contribuição foi de suma importância para manter o projeto de pé, e garantir a continuidade de nosso curso em história japonesa, que será divulgado nesta Sexta-feira (11/03).

Abaixo, a lista dos doadores que contribuíram com nossa campanha:

Alyne M. Kautnick
Alessandra Ferreira
Ana Luiza Kavalco Longo
André Akamine Ribas
André Fellipe Martins da Silva
André Miranda
Andressa Alves
Andrey Fillies
Apius Escobar
Brenno Tavares Duarte
Bruno Nascimento
Bruno Ouriques
Bruno Senra

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